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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A minha Morte, de Florbela Espanca

A minha Morte
Florbela Espanca

Eu quero, quando morrer, ser enterrada
Ao pé do Oceano ingénuo e manso,
Que reze à meia-noite em voz magoada
As orações finais do meu descanso…

Há-de embalar-me o berço derradeiro
O mar amigo e bom para eu dormir!
Velei na vida o meu viver inteiro,
E nunca mais tive um sonho a que sorrir!

E tu hás-de lá ir… bem sei que vais…
E eu do brando sono hei-de acordar
Para teus olhos ver uma vez mais!

E a Lua há-de dizer-me me voz mansinha:
- Ai, não te assustes… dorme… foi o Mar
Que gemeu… não foi nada… ‘stá quietinha…

terça-feira, 16 de novembro de 2010

À Espanca!

À Espanca!
Pedro Penido

Povoa meus sonhos
e deixa sobrar nada.
Perfura meus olhos
e deixa eu ver nada.

Toma minhas posses,
toma minha alma...
Toma tudo que quiser,
e tudo que puder,
por favor,
arranca.

Cá estou, louco e náufrago,
na imensidão do seu verso, Espanca!


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Espanca :: Poetas

Poetas
Florbela Espanca

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Espanca :: Languidez

Languidez
de Florbela Espanca

Tardes da minha terra, doce encanto,
Tardes duma pureza de açucenas,
Tardes de sonho, as tardes de novenas,
Tardes de Portugal, as tardes d’Anto,

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!…
Horas benditas, leves como penas,
Horas de fumo e cinza, horas serenas,
Minhas horas de dor em que eu sou santo!

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar…

E a minha boca tem uns beijos mudos…
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar…

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